Professor Berthold Zilly fala sobre as dificuldades que teve para transpor para o alemão "Memorial de Aires" e os temas centrais do último romance do escritor brasileiro, que morreu há cem anos.
Capa da edição alemã de 'Memorial de Aires', da editora Friedenauer Presse
DW-WORLD: Por que o senhor está atrasado com a tradução?
Berthold Zilly: Em parte, o atraso se deve ao próprio texto. Ano passado, traduzi Facundo: Civilización y Barbarie, de Domingo Faustino Sarmiento, que é duas vezes mais longo que Memorial de Aires. E levei menos tempo.
Isto em grande parte por causa da ambigüidade do texto do Machado?
A ambigüidade, a falta de definição. Isso é um princípio tanto da visão do mundo como da visão do homem, bem como do estilo, do manejo das palavras e da construção da sintaxe de Machado de Assis. Uma certa falta consciente de definição e clareza. Tudo é um pouco dúbio e vago. Também em termos morais. É difícil saber o que é bom e mau, real e ficção e qual o sentido exato das palavras e frases.
Um lema da obra dele poderia ser Dubito ergo sum. Descartes disse Cogito ergo sum, "penso logo existo". Para Machado vale "duvido, logo existo". Ele duvida de tudo, mas sem ser totalmente relativista. Por isso os pós-modernos gostam tanto dele, ou deveriam gostar. De certa forma, ele é pós-moderno. Ele é contra verdades ontológicas, imutáveis, eternas, determinadas. Mas, ao mesmo tempo, não é totalmente relativista. Ele tem algumas verdades, mas é difícil pesquisá-las na obra dele.
Aí voltamos à questão por que é tão difícil traduzir Machado. Porque há inúmeras frases que podem ser interpretadas dessa ou daquela maneira. E geralmente você se dá conta só quando começa a traduzir.
A tradução é, portanto, muito complicada.
Traduzir é sempre complicado, e Machado de Assis em especial. Ele é notório pelas suas expressões e frases ambíguas. Há pouco, por exemplo, estive refletindo sobre uma frase do livro. O narrador diz: "Já tenho embarcado e desembarcado muitas vezes, devia estar gasto. Pois não estou". O que ele quer dizer com gasto? Acostumado, cansado, insensível, acho que é por aí. Mas não é o sentido normal da palavra, não é o convencional. E ele reiteradamente usa palavras fora do seu sentido convencional. Praticamente a cada duas frases há uma dificuldade semelhante. Não se sabe também 100% o que ele quer dizer, há várias interpretações. E mesmo quando se sabe, manter essa anticonvencionalidade em alemão também não é fácil.
Zilly: lema de Machado poderia ser 'Dubito ergo sum'
Esse é um grande problema em traduções. O tradutor não tem o direito de ser tão original [quanto o autor]. Se eu escrever de uma forma tão anticonvencional quanto Machado, muitos pensarão que eu fiz uma má tradução, que não entendi alguma coisa.
Na poesia, aceita-se melhor o que não é convencional. Mas na prosa as pessoas acham que tudo dever ser escrito de forma clara e fluente. E se há algo muito fora do normal, as pessoas tendem a pensar que eu não sei bem o alemão.
O conselheiro Aires também usa conscientemente esse estilo diplomático, ele não se expressa sempre de uma forma clara.
Sim, mas às vezes ele usa um estilo bem coloquial. É uma mistura da sua linguagem privada e da linguagem coloquial da época. Às vezes ele é até bem descontraído. Por exemplo quando se refere à Fidélia como "mulher apetitosa". Isso não é exatamente uma expressão de alto nível.
É quando aparece um pouco do que o narrador de fato pensa.
Claro. Por um lado, isso não está de acordo com a etiqueta, com o que é correto, mas por outro... bem, afinal ele também é um ser humano, um homem, e também tem desejos, impulsos. E também malícia. E isso leva a quebras no estilo. E refletir tudo isso na tradução não é fácil.
Até na sua conversa com o diário ele é diplomático.
Sim, ele é diplomático até consigo mesmo. Mas nem sempre. Às vezes ele diz "eu vou confiar uma coisa só a você, papel". Por exemplo, "eu tenho inveja desse casal". Nesse ponto ele certamente está sendo sincero.
A sua dificuldade é manter essa ambigüidade.
Sim, e na maior parte das vezes isso não é possível. As línguas são muito diferentes, o que torna a coisa quase impossível. Cada língua é construída de uma forma diferente. Uma palavra que possui um duplo sentido numa língua não necessariamente o tem na outra. Ou o tem de outra maneira. Essa é uma discussão muito longa na literatura. Os múltiplos sentidos de uma palavra são muito importantes em James Joyce, por exemplo. Todos os grandes literatos se ocuparam com a ambigüidade ou o duplo sentido das palavras em suas línguas.
Na próxima página, leia sobre os temas centrais do último livro de Machado, Memorial de Aires.